“You'll always be a part of me, I'm part of you indefinitely. Girl don't you know you can't escape me. Ooh darling 'cause you'll always be my baby”. [toque do meu celular!]
Abro um olho só para não atrapalhar meu sono. Número desconhecido.
Obs.: Eu já comentei como sou “delicada” com quem me liga enquanto estou dormindo? Percebam!
- Hum?
- Parabéééns! Feliz aniversário. [super efusivo]
- Obrigada. Quem é?
- Pooorra, tu não sabes quem é?
- Ahhh, e aí? Tudo bem?
- Tudo. Tava dormindo?
- Ainda tô!
- Liguei para desejar tudo de bom. Vai ter festa?
- Não. Vou jantar com meus amigos. [ohhhh...]
- Hum...
- E a luta, como foi? [tentando me redimir da grosseria]
- Foi tranqüila. Ganhei. Por que tu não foste?
- Aniversário de alguém. Da minha mãe, eu acho. Parabéns!
- Brigado! Então tá, me liga aí um dia desses.
- Ligo sim. Obrigada, viu?
- Beijo!
- Outro.
Tentei voltar a dormir, mas um misto de espanto e entusiasmo tomava conta de mim. De onde a gente menos espera... É amigos, a ligação não tinha partido de nenhum amigo, pretê, ex-pretê, nem nada parecido. Foi dele. Daquele que nunca na história desse país se lembrou do meu aniversário. O trepê!
Fiquei pensando no que deveria fazer para recompensá-lo daquele gesto tão... Gentil? Simpático? Fofo? Mal intencionado? Ou sem intenção nenhuma?
Parei de pensar na recompensa e comecei a imaginar o propósito da ligação. Por que nós mulheres tendemos a procurar um significado em atitudes e gestos que muito provavelmente não tenham significado nenhum? Uma ligação de aniversário nada mais é que... Uma ligação de consideração, amizade, carinho... E nada mais. Certo?
Pode ser! Mas e se não for? Marquei, né? Poderia ter sido mais simpática. Fiquei com vontade de ligar de volta. De marcar um encontro. Naquela mesma hora. Aí lembrei que teria que levantar da cama, dar uma geral no quarto, me arrumar, esperar ele chegar, abrir uma porta e dois portões, segurar a Magrela... E depois de dar uma ou duas, das duas uma, ou expulsaria o pobre no meio da madrugada, ou deixaria que ele dormisse aqui, correndo o risco de ele passar a noite querendo conversar, ou o pior àquela altura, transar. Desisti! Melhor voltar a dormir.
Mas preciso admitir... Fiquei meio boba! Nem deu para perceber, né?
Há exatamente 364 dias escrevi a crônica de aniversário que reproduzo abaixo.
[balzaqueando]
Por incrível que pareça, depois de muito tempo, é a primeira vez que eu não entro em parafusos com a proximidade do meu aniversário. Nem inferno astral, nem crise existencial. Com quase trinta anos na cara, espero que isso seja sinal de maturidade.
A verdade é que ultimamente estou sem paciência pra muita coisa. Até pras minhas crises existenciais corriqueiras nessa época do ano. Minha paciência esgotou para picuinhas, joguinhos, falta de educação, consideração e noção, cu doce e outras bobagens.
Quero fazer o que me dá na telha sem me preocupar com a opinião alheia. E quero ter discernimento pra diferenciar o divertido do ridículo. Quero falar menos e ouvir mais. Quero parar de ouvir demais os problemas do mundo e quero alguém que se importe com os meus problemas. Quero que meus problemas se danem!
Estava à procura de um namorado, de um parceiro, de um amigo. Descobri que estava procurando nos lugares e nas pessoas erradas. Queria muito encontrar a certa. Enquanto isso, quero me divertir com as erradas.
As cobranças na casa dos trinta aumentam. Quando você pensa que já está velho demais pra se preocuparem com sua vida, aí é que a pressão começa. Você tem que casar. Ter filhos. Cuidar da casa. Ser uma profissional exemplar. Falar mais de dois idiomas. Não pode ser chata. Cuidado com a TPM. Também tem que ser mais sociável, menos sincera, um pouco surda, cega e muda. Às vezes invisível. Ah, e tem que ser magra, bem vestida, feminina, sexy, discreta. E ninguém se importa com o que você quer. O que você quer?
Eu quero ter minha casa. Um filho. Um marido, quem sabe. Quero ser uma excelente profissional. Completa. Quero ter direito a ser chata, birrenta, implicante. Quero curtir minha TPM e minhas deprês. De vez em quando quero ser cega, surda, muda, invisível e louca. Quero falar coisas nonsense, rir de piadas idiotas, dançar até cansar, beber até cair, chorar até não lembrar mais por quê.
Nesses dois anos a caminho dos trinta, ainda quero muitos livros, conhecer lugares novos, encontrar pessoas bacanas, ouvir mil vezes a mesma música, ouvir pela primeira vez uma música bacana, experimentar todos os sabores, organizar as mais variadas e divertidas festinhas, beijas várias bocas, ou várias vezes a mesma boca.
Talvez a crise existencial não tenha batido a minha porta esse ano porque eu já tenho muito bem definido tudo o que eu quero pro meu futuro. Viver cada vez mais o presente.
Naquele ano, talvez inspirada pela temporada de reciclagem longe de velhos hábitos em Manaus, eu sabia o que queria. Não teve inferno astral, nem crise existencial. Dei os créditos à maturidade. Mas agora, revendo minhas atitudes, percebo que amadureci pouco, graças a Deus. Na dosagem certa para os meus quase trinta anos. Graças a essa imaturidade continuo falastrona, reclamona, desbocada, irônica e passional.
Essa diferença de um ano que me separa da casa dos trinta ainda me permite fazer algumas bobagens e cometer algumas burradas. E, principalmente, me concede o direito de ser como sou, “falastrona, reclamona, desbocada, irônica e passional”. Deve ser pesado viver tentando aparentar ser outra pessoa. Dos meus pecados a omissão não faz parte. Talvez essa minha presença, sempre imperativa, seja o motivo de tanto incomodo.
[retrospectiva]
Em 2008 me encontrei profissionalmente. Em termos de trabalho, conhecimento e reconhecimento, talvez tenha sido o melhor ano da minha vida. E o melhor ainda está por vir, com certeza!
No campo afetivo, vivi uma aventura rápida, reencontrei o “trepê”, de vez em quando volto a suspirar pelo “ex-pretê-ideal”, e nada mais profundo. Daqui pra frente, quem sabe...
Esse ano foi extremamente importante para eu cuidar de algo que estava de escanteio na minha vida: EU! Li alguns bons livros, conheci muitas pessoas, aprendi muita coisa. Mudei de casa, reformei o quarto, comprei móveis novos. Renovação total. Voltei a malhar, parei de malhar, e segunda-feira volto à academia. Fiz novos amigos e voltei a conviver mais com os antigos. Larguei um velho vício [refrigerante] por sete meses, em compensação nenhum vício novo foi adquirido. Passei por um check-up. Parei de roer nove unhas [uma continua curtinha]. Fiz duas tatuagens.
Apesar dos pesares, eu diria que o ano dos 28, meu retorno de saturno, foi 90% “MARA”.
Outro dia meu tio estava contando um fato que ocorreu com ele no supermercado, quando a supervisora resolveu recolher as sacolas plásticas que ele usava para empacotar as compras e, quando questionada, ainda falou que ele deveria levar os produtos “na mão” [ô, Manaus!]. No calor da discussão, revoltado por uma supervisora agir daquela maneira indolente, meu tio disse que não pretendia roubar sacola plástica, que pela má qualidade do material não serve mais nem para saco de lixo, e perdeu a razão ao chamar a funcionária de “vagabunda”. Saiu do estabelecimento irado e, ao contar o ocorrido em uma festa de família, tentou se justificar dizendo que o “vagabunda” que ele proferiu deveria ter sido interpretado como "folgada".
Acontece que certos adjetivos ganham proporções diferentes quando dirigidos a homens e mulheres. Exemplos:
*Homem galinha é comedor. Mulher é puta.
*Homem vagabundo é folgado, boa vida. Mulher é puta.
*Homem pistoleiro é matador de aluguel. Mulher é puta.
*Homem bandido é ladrão, mau caráter. Mulher é puta.
*Homem puto está com raiva. Mulher é puta mesmo.
Esses foram alguns adjetivos machistas [dependendo do ponto de vista, feministas] que encontrei num site de piadas, mas cá entre nós, alguns adjetivos são de lascar! Soam como falsidade, cinismo ou sarcasmo. Tudo depende da forma que são ditos, do contexto da conversa, do humor de quem ouve...
Eu, por exemplo, costumo chamar alguns amigos de “queridos” e “queridas”, em contrapartida, quando quero ser extremamente antipática, destilo um “querida” de matar. Por outro lado, por mais fofo que seja chamar alguém de “fofo”, odeio quando alguém me chama de “fofinha”. Fofinha é o cacete, chama logo de gorda que é mais sincero. Né, não?
.:.Chrys Braga [a.k.a Melissa Garcia]
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